Com exclusividade para a MundoLogística, CEO da Logcomex explicou como novas medidas impostas pelo governo americano afetam as operações brasileiras
As tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos produtos brasileiros já se tornaram um medo constante do setor, que vive sob pressão em relação à importação desde 2025. Essa insegurança ganhou um novo capítulo em 2026, com o anúncio de uma tarifa de até 12,5% sobre diversos produtos brasileiros – somada a outra taxa de 25% anunciada anteriormente.
De acordo com o CEO da Logcomex, Helmuth Hofstatter, as novas medidas atingem cerca de 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, tomando como base o comércio bilateral de 2024. Desse total, 16,5% das exportações estão sujeitas simultaneamente às duas tarifas, somando uma sobretaxa acumulada de 37,5%.
No entanto, o executivo explicou que o primeiro impacto não acontece no porto, mas sim na viabilidade econômica da operação. “Quando uma tarifa aumenta de forma relevante o custo de entrada de um produto no mercado norte-americano, exportador e comprador precisam reavaliar preço, margem, volume e continuidade dos pedidos”, ressaltou em entrevista para a MundoLogística.
IMPACTO DAS TARIFAS NA LOGÍSTICA
Segundo Hofstatter, o impacto logístico aparece depois, quando essa nova conta se transforma em redução, cancelamento, antecipação ou redirecionamento de embarques. O executivo explicou que os setores mais expostos incluem máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, calçados, móveis e confecções – e são nesses segmentos que é preciso uma atenção maior.
“É nesses setores mais expostos que devemos observar primeiro a revisão de pedidos, a renegociação entre compradores e fornecedores e possíveis mudanças na programação de produção e embarque”, destacou.
Ele destacou que também é importante entender que a tarifa não produz o mesmo efeito em todas as empresas. “Duas companhias do mesmo setor podem reagir de maneiras completamente diferentes. Uma pode ter margem para negociar com o comprador e preservar o volume. Outra pode perder imediatamente a viabilidade da operação”, exemplificou.
BOLA DE NEVE
Para Hofstatter, a primeira etapa afetada pela aplicação das tarifas é o planejamento de demanda. Segundo explicado pelo executivo, se o produto brasileiro perde competitividade nos Estados Unidos, o importador pode reduzir o pedido, suspender uma compra, buscar outro fornecedor ou pressionar por uma renegociação de preço.
Dessa forma, a cadeia é afetada antes mesmo de a mercadoria ser transportada. “A empresa pode precisar rever sua programação de produção, a compra de insumos, a formação de estoques e a contratação de frete”, detalhou.
De acordo com Hofstatter, na sequência, os efeitos podem chegar à consolidação das cargas, à reserva de espaço com os armadores, à frequência dos embarques, à armazenagem e à programação portuária. “Uma operação que tinha volumes previsíveis pode passar a trabalhar com lotes menores, embarques menos frequentes ou maior tempo de estoque”, explicou.
Além disso, o executivo destacou que outro ponto que necessita de atenção é em relação ao produto já fabricado ou preparado para o mercado norte-americano. Já que, dependendo da especificidade, ele pode não ser facilmente redirecionado para outro país. “Isso pode aumentar custos de armazenagem, necessidade de capital de giro e despesas de adaptação comercial ou regulatória.”
AJUSTES NAS EMPRESAS BRASILEIRAS
Ao ser questionado se as empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos podem precisar rever suas operações, o executivo foi direto: “Sim, principalmente as empresas com alta dependência do mercado norte-americano e cujos produtos foram diretamente atingidos pelas novas medidas.”
O ponto de partida, segundo ele, é saber qual parte da operação deixou de ser economicamente viável depois da tarifa. Essa resposta exige uma análise detalhada por produto, classificação tarifária, comprador, contrato e margem, além de avaliar se há espaço para repassar parte do custo, dividir o impacto com o cliente ou alterar condições comerciais.
Dessa forma, as empresas podem ter diversas opções: redução ou mudança na frequência dos embarques, adaptações de produtos, renegociação de contratos ou até a busca de novos compradores.
Porém, o executivo alertou: “Encontrar um mercado alternativo não é um movimento imediato”. “Pode exigir homologação, certificações, adequação de embalagem, mudanças na estratégia comercial e uma nova estrutura logística.”
O QUE OS DADOS REVELAM?
Apesar das necessidades de mudanças nas empresas, Hofstatter ponderou que ainda é cedo para atribuir aos anúncios mais recentes uma mudança consolidada nos embarques brasileiros, já que as tarifas entraram em vigor em julho de 2026.
De acordo com o executivo, existe uma diferença importante entre o momento da decisão empresarial e o momento em que essa decisão aparece nas estatísticas. “Uma empresa pode começar imediatamente a renegociar um pedido ou suspender um embarque, mas esse movimento demora a aparecer de forma consolidada nos dados de comércio exterior”, ressaltou.
Para ele, o que já pode ser observado é que o comércio entre Brasil e Estados Unidos vinha perdendo dinamismo antes da entrada em vigor dessas novas medidas. Ao trazer dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o executivo revelou que as exportações brasileiras para o mercado americano caíram de US$ 40,4 bilhões em 2024 para US$ 37,7 bilhões em 2025.
Já no primeiro semestre de 2026, somaram US$ 17,4 bilhões – queda de 13% em relação ao mesmo período de 2025. E o movimento de queda também acontece no outro lado: a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu de 12,1% no primeiro semestre de 2025 para 9,4% no primeiro semestre de 2026.
“Esses dados mostram uma desaceleração do comércio bilateral, mas seria incorreto atribuir toda essa retração às tarifas que passaram a valer apenas no final de julho de 2026”, avaliou.
COMO SE PREPARAR?
Diante desse cenário de incerteza, Hofstatter defendeu que as empresas saiam da análise geral da tarifa e cheguem à exposição concreta da empresa. “É preciso identificar quais produtos foram atingidos, qual alíquota se aplica a cada classificação, quais clientes estão expostos e quanto da receita e da margem depende dessas operações.”
Depois disso, a empresa precisa construir cenários: “O que acontece se o comprador reduzir o pedido?”, “até que ponto é possível negociar preço?” ou “existem outros países comprando o mesmo produto?”
É nesse ponto, segundo o executivo, que o uso de dados de comércio exterior se torna estratégico. “Eles permitem observar fluxos reais de compra e venda, evolução de volumes, preços médios, origens, destinos, fornecedores, compradores, portos utilizados e frequência das operações”, destacou.
De acordo com Hofstatter, os dados precisam funcionar como um sistema de alerta em um cenário de incerteza comercial. “A vantagem estará com as empresas capazes de perceber rapidamente uma alteração no comportamento de clientes, concorrentes e mercados e transformar essa informação em decisão comercial e operacional”, disse.
Para ele, mais do que reagir a uma tarifa específica, é preciso construir capacidade para revisar continuamente mercados, fornecedores, rotas e condições comerciais, já que a incerteza passou a fazer parte da operação de comércio exterior.
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