Vertical de soluções financeiras e serviços da Randoncorp, apontou leve deterioração da inadimplência em veículos pesados e aumento da procura de transportadoras por linhas de curto prazo para gestão de caixa
A inadimplência entre empresas do transporte rodoviário de cargas atingiu o maior nível dos últimos 15 anos e gira em torno de 4,5% no mercado de crédito para pessoas jurídicas. O percentual é mais de quatro vezes superior aos cerca de 1% registrados em períodos de menor risco, segundo avaliação de Luis Felipe Szmidtke, diretor executivo da Rands, braço de soluções financeiras da Randoncorp, em entrevista publicada pela Transporte Moderno em julho.
Segundo Szmidtke, o cenário está relacionado à combinação de juros elevados, aumento dos custos operacionais, pressão sobre as margens e aspectos relacionados à gestão financeira das transportadoras. Na avaliação do executivo, a deterioração dos indicadores também tem tornado as análises de crédito mais rigorosas.
O movimento também é observado pela própria Rands, soluções financeiras e serviços da Randoncorp, na carteira de financiamento de caminhões e implementos. Em entrevista à MundoLogística, o gerente de Negócios da instituição, Daniel Sierota, afirmou que houve uma leve deterioração dos indicadores de inadimplência nos últimos meses, principalmente entre empresas com maior alavancagem financeira e menor capacidade de repassar custos.
“O cenário reflete, principalmente, os efeitos defasados do ciclo prolongado de juros elevados, que pressionou o fluxo de caixa das transportadoras e aumentou o custo de captação de recursos. A inadimplência da carteira de veículos pesados já se aproxima de patamares observados em períodos anteriores de maior estresse econômico”, explicou.
De acordo com Sierota, também há pressão decorrente do aumento dos custos operacionais, da compressão das margens em algumas operações de transporte e do alongamento dos prazos de recebimento por parte dos embarcadores. Apesar desse cenário, ele ressaltou que a qualidade da carteira permanece relativamente controlada, sustentada por processos mais rigorosos de concessão de crédito e pelo perfil profissional dos tomadores de financiamento.
CRÉDITO DE CURTO PRAZO GANHA ESPAÇO
As condições do mercado também têm provocado mudanças na forma como as transportadoras recorrem ao crédito. Segundo a Rands, o custo financeiro continua sendo o principal fator de pressão sobre a capacidade de investimento das empresas. Combustível, manutenção, seguros e pedágios também estão entre os custos operacionais apontados pela instituição.
Ao mesmo tempo, o alongamento dos prazos de recebimento tem aumentado a necessidade de capital de giro. Nesse contexto, a Rands identificou uma mudança na estrutura de endividamento das transportadoras.
“Se anteriormente predominavam operações de longo prazo destinadas à aquisição de caminhões e renovação de frota, hoje observamos uma demanda crescente por linhas de curto prazo voltadas à gestão de caixa. Esse movimento sinaliza que parte das empresas têm direcionado esforços para preservar liquidez e administrar pressões de capital de giro em um cenário de custos financeiros elevados e margens mais apertadas”, disse Sierota.
A mudança também aparece nas decisões relacionadas à frota. De acordo com o gerente, as transportadoras passaram a adotar uma postura mais seletiva nos investimentos, com foco maior na renovação estratégica dos veículos em detrimento de movimentos mais agressivos de expansão.
A Rands também observou crescimento da adesão a modelos de rental e terceirização de ativos. Segundo Sierota, essas alternativas oferecem maior previsibilidade de custos, menor necessidade de capital próprio e mais flexibilidade para adequar a frota às oscilações de demanda.
QUANDO O FINANCIAMENTO CHEGA À JUSTIÇA
A dificuldade para manter o pagamento de financiamentos pode colocar em discussão um ativo diretamente ligado à geração de receita das transportadoras: os próprios caminhões. Em contratos com alienação fiduciária, situações de inadimplência podem resultar em ações de busca e apreensão dos veículos.
Um caso envolvendo uma transportadora do Rio de Janeiro chegou à 15ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A empresa obteve uma liminar que suspendeu a apreensão de caminhões utilizados em sua operação durante a discussão judicial de um contrato de financiamento. O caso foi conduzido pelo escritório Maffioletti & Arndt Advogados.
Segundo as informações divulgadas sobre o processo, o desembargador relator identificou indícios de irregularidade na constituição da mora, requisito para a concessão de liminar em ações de busca e apreensão baseadas em contratos com alienação fiduciária. Com a decisão, a transportadora permaneceu na posse dos veículos enquanto o processo segue em tramitação.
Para Gustavo Maffioletti, sócio do escritório responsável pelo caso, as circunstâncias de cada contrato e os procedimentos adotados pelo credor precisam ser avaliados individualmente.
“Muitas empresas acreditam que, ao receber uma ação de busca e apreensão, não existe alternativa jurídica para preservar seus veículos. Na prática, existem situações em que o procedimento adotado pelo credor apresenta falhas relevantes e que precisam ser analisadas caso a caso. Foi exatamente isso que identificamos neste processo”, afirmou.
No caso da transportadora fluminense, a decisão permite que os caminhões continuem sendo utilizados na operação enquanto a discussão judicial prossegue. Segundo as informações divulgadas pelo escritório, a empresa permanece na posse da frota sem realizar pagamentos ao banco até o final do processo.
“Para uma transportadora, perder um caminhão significa comprometer contratos, faturamento e empregos. Nosso trabalho consiste justamente em identificar teses jurídicas capazes de proteger a atividade empresarial e garantir que o cliente continue operando enquanto busca uma solução definitiva para o conflito”, explicou Maffioletti.
ATRASOS TAMBÉM AVANÇARAM NO CRÉDITO PARA EMPRESAS
Dados divulgados pela Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) mostram uma piora nos atrasos das operações de financiamento de veículos para pessoas jurídicas ao longo de 2025. Na carteira de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) para pessoa jurídica, os atrasos entre 15 e 90 dias passaram de 4,1% em dezembro de 2024 para 4,9% em dezembro de 2025. No leasing para pessoas jurídicas, o indicador passou de 0,6% para 1,5% no mesmo período.
Os dados abrangem as operações corporativas de financiamento de veículos e, portanto, não representam exclusivamente o transporte rodoviário de cargas. Ainda assim, acrescentam uma referência sobre o comportamento recente do crédito para pessoas jurídicas, ao lado dos indicadores específicos do setor apresentados pela Rands.
No financiamento de caminhões, outro indicador divulgado em 2026 aponta para patamares próximos aos registrados em períodos anteriores de maior inadimplência. Francisco Maqueda, diretor de risco do Banco Traton, afirmou ao Transporte Moderno, em maio, que a taxa estava em 4,7%, segundo os últimos dados do Banco Central, e poderia ultrapassar 5% nos trimestres seguintes. Segundo o executivo, durante a recessão de 2015 e 2016, o indicador chegou a 5,8%.
RENEGOCIAÇÃO DE DÍVIDAS
Além das discussões judiciais envolvendo veículos financiados, a renegociação de contratos bancários aparece entre as alternativas buscadas por transportadoras diante de dificuldades financeiras.
Maffioletti afirmou que as empresas precisam verificar os valores e as condições dos contratos antes de formalizar uma renegociação com as instituições financeiras.
“A empresa precisa ter clareza sobre o valor real da dívida antes de renegociar. Sem uma análise técnica, existe o risco de incorporar cobranças questionáveis ao novo contrato e transformar uma dificuldade momentânea em um problema financeiro ainda maior”, destacou.
No caso da transportadora do Rio de Janeiro, a discussão sobre o contrato seguirá até o julgamento definitivo. Segundo Maffioletti, a manutenção dos veículos durante a tramitação altera as condições em que a empresa discute a dívida com a instituição financeira.
“Quando uma empresa consegue permanecer na posse do bem e demonstrar juridicamente a existência de irregularidades, cria-se um cenário muito mais equilibrado para a discussão da dívida. Isso frequentemente abre espaço para soluções mais adequadas e sustentáveis para ambas as partes”, pontuou.
FUTURO DO SETOR E MOVE BRASIL COMO CRÉDITO PARA RENOVAÇÃO DA FROTA
Para o segundo semestre de 2026, a Rands espera uma recuperação gradual do mercado, embora ainda identifique desafios relacionados ao custo do crédito e à rentabilidade das transportadoras. Entre os fatores apontados pela instituição estão a necessidade de renovação da frota, a busca por ganhos de produtividade e a expectativa em torno da Fenatran 2026.
Para 2027, a instituição prevê um cenário mais favorável, com tendência de normalização da demanda por crédito e retomada dos investimentos em ativos. Segundo Sierota, essa perspectiva considera a combinação entre o envelhecimento da frota, a necessidade de aumento da eficiência operacional e uma possível melhora nas condições de financiamento.
Na avaliação do executivo, programas direcionados de financiamento continuam tendo papel no mercado em um momento de maior seletividade das transportadoras na realização de investimentos.
Em meio ao cenário de maior cautela na contratação de crédito, o financiamento para renovação da frota ganhou um novo impulso em 2026 com o Move Brasil. Na segunda fase, os financiamentos aprovados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já somam R$ 20 bilhões, o equivalente a 95% dos R$ 21 bilhões destinados ao programa BNDES Mais Mobilidade. O prazo para apresentação de novos pedidos de financiamento termina em 28 de agosto.
A Medida Provisória nº 1.362/2026, que criou o Move Brasil 2, segue em vigor até 22 de setembro, após ser prorrogada automaticamente por mais 60 dias. As operações, no entanto, precisam ser protocoladas no BNDES até o fim de agosto.
Do total aprovado até o momento, R$ 19,1 bilhões foram destinados às empresas de transporte, em cerca de 17,2 mil operações. Já os caminhoneiros autônomos receberam R$ 900 milhões, distribuídos em 2,1 mil financiamentos.
Na segunda fase do programa, R$ 2 bilhões foram reservados aos transportadores autônomos. Como R$ 900 milhões já foram aprovados para o segmento, aproximadamente R$ 1,1 bilhão desse montante permanece disponível.
Na avaliação da Rands, programas direcionados de financiamento continuam tendo papel no mercado em um momento de maior seletividade das transportadoras na realização de investimentos.
Fonte: Mundo Logística






