Projeções da safra de 2026 indicam ajuste no volume produzido, mas mantêm elevada a demanda por transporte, armazenagem e eficiência logística no país
A ampliação da produção global de alimentos nas próximas décadas coloca a logística como um dos principais eixos da cadeia do agronegócio. Estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicam que a produção mundial precisará crescer entre 60% e 70% para atender à demanda futura, impulsionada por uma população global projetada em 9,7 bilhões de pessoas até 2050.
Nesse cenário, o Brasil ocupa posição estratégica. Conforme dados divulgados pelo Globo Rural, o país pode responder por até 40% do aumento necessário da produção global de alimentos, apoiado por fatores como a disponibilidade de terras, avanços tecnológicos no campo e a expansão de sistemas integrados de lavoura, pecuária e floresta, que já cobrem cerca de 17 milhões de hectares.
Ao mesmo tempo, o crescimento da produção amplia a pressão sobre a infraestrutura logística, responsável por conectar o campo aos mercados consumidores internos e internacionais.
Segundo a FAO, cerca de 14% de toda a produção global de alimentos é perdida entre a fazenda e o consumidor final, principalmente em razão de falhas nos sistemas de transporte e armazenagem. No caso brasileiro, essas perdas estão diretamente relacionadas às limitações estruturais da logística.
PRODUÇÃO EM ALTA AMPLIA A PRESSÃO SOBRE A INFRAESTRUTURA
O avanço da produção agrícola nacional reforça a dimensão do desafio logístico. De acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a safra brasileira de grãos de 2025 atingiu 346,1 milhões de toneladas, o maior volume da série histórica iniciada em 1975. A produção de soja alcançou 166,1 milhões de toneladas, enquanto milho (141,7 milhões), algodão (9,9 milhões), sorgo (5,4 milhões) e café do tipo canephora (1,3 milhão) também registraram recordes.
Para 2026, o terceiro prognóstico do IBGE aponta uma produção estimada em 339,8 milhões de toneladas, o que representa uma redução de 1,8% em relação ao recorde de 2025. A retração está concentrada em culturas com forte impacto logístico, como milho, trigo, arroz, sorgo e algodão, enquanto a soja apresenta projeção de crescimento de 1,1%.
Mesmo com o ajuste, o volume produzido mantém o Brasil em um patamar elevado de oferta, preservando a forte demanda por transporte, armazenagem e escoamento.
A leitura do setor de transporte é de cautela, mas sem indicação de retração operacional. Segundo o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), Silvio Kasnodzei, a redução prevista deve ser analisada dentro de um contexto ampliado.
“A safra de 2025 foi histórica e elevou a base de comparação. Mesmo com a queda prevista para 2026, o Brasil segue operando em um patamar de produção muito elevado, o que mantém o Transporte Rodoviário de Cargas fortemente demandado”, avaliou o executivo.
Kasnodzei destacou que o impacto para o TRC não se resume ao volume absoluto transportado. “A logística do agronegócio envolve escoamento, armazenagem, redistribuição de estoques e exportação. Em muitos casos, uma safra menor exige ainda mais planejamento, eficiência operacional e integração entre os elos da cadeia, o que reforça a importância do transporte rodoviário”, explicou.
DEPENDÊNCIA RODOVIÁRIA, ARMAZENAGEM LIMITADA E CUSTOS ELEVADOS
O escoamento da produção brasileira segue fortemente concentrado no transporte rodoviário. Atualmente, mais de 65% dos grãos são transportados por rodovias, o modal mais caro e mais sujeito a acidentes, segundo levantamento do Grupo de Extensão e Logística Agroindustrial da Escola Superior Luiz de Queiróz (EsalqLog/USP). As ferrovias respondem por cerca de 22% do volume transportado, enquanto as hidrovias representam apenas 9%.
Esse desequilíbrio da matriz logística é detalhado no relatório Retrato da Logística de Grãos do Brasil, produzido pela nstech. O estudo aponta que a predominância do modal rodoviário resulta em custos elevados e ineficiências operacionais, além de gargalos como filas em terminais e limitações de infraestrutura. Como reflexo, aproximadamente 70 mil caminhões são utilizados a mais do que o necessário para o escoamento da safra brasileira.
“Se a gente tivesse escrito esse relatório há dez anos, os problemas seriam basicamente os mesmos”, observou a especialista em Logística do Agronegócio na nstech e coautora do estudo, Mariela Grisotto.
Já o diretor de Agronegócio da nstech e um dos autores do relatório, Thiago Cardoso, destacou que entraves como infraestrutura limitada, transporte rodoviário predominante e armazenagem insuficiente permanecem. “O que mudou foi o uso da tecnologia, que evoluiu muito”, disse.
A capacidade de armazenagem também se mostra insuficiente diante do volume produzido. O Brasil consegue armazenar apenas entre 60% e 70% da produção de grãos. Nos Estados Unidos, essa proporção chega a 150%. A limitação pressiona o transporte durante o pico da safra, encarece o frete e reduz o poder de barganha do produtor rural. A pesquisa citada no relatório da nstech mostra que 61% dos produtores brasileiros não possuem estrutura própria de armazenagem.
“Construir armazém no Brasil é caro. E tem outro fator importante: é preciso de gente treinada para operar. Não basta ter dinheiro e construir, é preciso mão de obra qualificada. E se for feito na fazenda, surgem outros desafios também”, pontuou Cardoso.
O cenário evidencia a necessidade de investimentos estruturais. Estimativas indicam que serão necessários cerca de US$ 2,7 trilhões por ano até 2030 para atender à demanda global por alimentos e garantir a segurança alimentar. No Brasil, entretanto, o investimento em infraestrutura de transporte corresponde atualmente a apenas 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Fonte: Mundo Logística






