Cenário do biocombustível no país combina aumento da produção, avanço nos testes de mistura e uma nova percepção após a crise no Oriente Médio
O biodiesel brasileiro está passando por uma fase de transformação e crescimento. As usinas brasileiras produziram 9,84 milhões de m³ do biocombustível em 2025, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Além disso, o diesel comercializado no país contém 15% de biodiesel (B15) – mistura que deve avançar gradualmente até 20% em 2030.
Para o presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO), Jerônimo Goergen, o Brasil vive “o melhor momento” da história do biodiesel. Em entrevista para a MundoLogística, o executivo afirmou que houve um entendimento setorial da necessidade de garantir o reconhecimento do produto pelo mercado.
Por isso, o setor decidiu atender à demanda e está financiando, com R$ 10 milhões, o que Goergen classifica como o maior programa de testes de biodiesel do mundo. “Isso tudo vai trazer uma etapa de consolidação do setor. Nós vamos ter aí uma qualidade 100% garantida e reconhecida porque fizemos os testes”, destacou.
Na visão de Goergen, “esse é um momento que vai consolidar definitivamente a política de biodiesel no país”. Para o executivo, o país é “o único preparado” para uma adoção maior do biocombustível.
MOMENTO DO BIODIESEL NO BRASIL
O vice-presidente de Operações da Be8, Leandro Zat, também identificou avanços no setor, especialmente em relação à segurança de suprimento. Segundo ele, houve evolução no mercado nos últimos anos, com oferta suficiente para atender à mistura obrigatória de biodiesel no país.
“Nunca, durante o programa, nós tivemos ausência de biodiesel para a utilização conforme o percentual. Sempre houve uma sobreoferta de produtos”, afirmou.
Esses avanços ocorreram em meio a mudanças no percentual de mistura. Em março de 2024, a participação do biodiesel no diesel vendido nos postos passou de 13% para 14%. No mesmo ano, a Lei do Combustível do Futuro estabeleceu uma trajetória de aumento da mistura, com previsão de chegar a 20% em 2030.
Atualmente, o diesel comercializado no Brasil contém 15% de biodiesel, mistura conhecida como B15. A próxima elevação, para o B16, já está atrasada em relação às expectativas dos fabricantes e pode ocorrer apenas em agosto de 2027, segundo informações publicadas pela AgriBiz.
CRISE INTERNACIONAL REFORÇA PAPEL DO BIODIESEL
Além disso, Zat mencionou uma mudança na percepção sobre o biodiesel após a crise gerada pelos conflitos no Oriente Médio. Em meio aos confrontos, a navegação pelo Estreito de Ormuz – rota por onde passava cerca de 20% de todo o petróleo consumido globalmente – foi suspensa, disparando o preço do barril.
Segundo o executivo, o Brasil ainda importa 25% do diesel fóssil que consome. Nesse cenário, o biodiesel produzido internamente ajudou a amenizar o impacto da crise sobre o abastecimento nacional, especialmente no início do conflito, em março. “Então teve, sim, uma mudança drástica de percepção, seja com relação à garantia de suprimento ou voltada também à parte de preços”, revelou.
Como exemplo, ele citou que, em março e abril deste ano, no início do conflito, o diesel chegou a ser vendido a R$ 9 e R$ 10 em alguns postos, enquanto o biodiesel era comercializado a R$ 5,50 e R$ 6.
Na visão de Jerônimo Goergen, da APROBIO, a resposta para esse problema também estava em casa: o biodiesel brasileiro. Meses depois da crise, em julho, a ANP passou a dispensar a exigência de anuência prévia para o uso voluntário de biodiesel puro (B100) em algumas aplicações. Agora, é preciso apenas comunicar à agência em casos de uso voluntário do biocombustível.
Segundo ele, se a regra já estivesse em vigor no início do conflito, o impacto sobre o Brasil teria sido menor. “Teríamos tido muito menos pressão, porque o agronegócio estaria usando o biocombustível e o transporte de carga estaria usando o misturado. Isso já teria sido uma importante economia para o Brasil”, afirmou.
Essa independência é um dos benefícios que o executivo associa ao avanço do biodiesel, já que o combustível sustentável reduziria a vulnerabilidade externa do país. Goergen enfatizou que cada ponto percentual a mais de mistura de biodiesel representaria uma economia de R$ 7 bilhões para o país, considerando a capacidade que a indústria teria de misturar até 22%.
BENEFÍCIOS AMBIENTAIS E SOCIAIS DO BIODIESEL
Além do benefício financeiro, o presidente da APROBIO citou que o fortalecimento da produção do biodiesel melhora o preço pago pela soja e reduz o custo da ração animal, o que barateia a produção de proteína no país. Os efeitos, de acordo com ele, se estendem também à economia e à sociedade, com geração de empregos e impactos positivos nas áreas ambiental e de saúde pública. “Isso não é teoria, isso é prática”, afirmou.
O executivo mencionou os impactos do biodiesel diante das mudanças no agronegócio brasileiro. Segundo Goergen, o movimento chinês para ampliar a produção de soja pode aumentar a vulnerabilidade do Brasil, que tem o país asiático como o maior comprador do grão nacional.
Nesse cenário, ele vê uma aproximação entre o agronegócio e a produção de biocombustíveis com o esmagamento da soja. Nesse processo, o grão é transformado principalmente em óleo, que pode ser destinado à produção de biodiesel, e farelo, utilizado na alimentação animal.
Para se ter uma ideia da relação entre a produção do agronegócio com o biocombustível o óleo de soja é responsável por mais de 70% de todo o biodiesel produzido no país. “Assim nós vamos escapar desse problema, nós vamos ter a nossa industrialização aqui. O agronegócio brasileiro virá como grande parceiro do biocombustível”, apontou.
Já Leandro Zat, da Be8, elencou as vantagens do biodiesel a partir da estrutura do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), criado com base em três pilares: mercado, meio ambiente e social. Em relação ao aspecto ambiental, é comprovada a eficiência do uso do biocombustível para operações mais sustentáveis.
Segundo manifesto lançado pela Aprobio, Abiove e Ubrabio durante a COP30 em 2025, o biodiesel pode reduzir em até 94% as emissões de Gases de Efeito Estufa em comparação ao diesel fóssil. Além disso, o uso do biocombustível no país já evitou a emissão de mais de 127 milhões de toneladas de CO2 equivalente.
Zat ressaltou que, no pilar social, o programa exige que as indústrias comprem matéria-prima da agricultura familiar. Na visão do executivo, essa exigência ajuda famílias a permanecerem no campo e dá mais longevidade às propriedades rurais.
O mesmo manifesto das entidades do setor apontou que cerca de 300 mil agricultores familiares integram a cadeia do biodiesel e movimentam R$ 9 bilhões ao ano.
FUTURO DO BIODIESEL NO BRASIL
Na avaliação de Zat, há condições favoráveis para o avanço do biodiesel no país. De acordo com o executivo, a produção agrícola, a presença de usinas em diferentes regiões e a capacidade industrial podem aumentar a eficiência do Brasil em termos de abastecimento do biocombustível e da descarbonização.
“Temos boas condições, porém precisamos aproveitar as oportunidades e acelerar a velocidade das decisões”, alertou o executivo. Para ele, o desafio agora é fazer com que o biodiesel seja visto como garantidor de suprimento.
A visão de Jerônimo Goergen sobre o futuro do biocombustível no Brasil é parecida. “O nosso compromisso é mudar a imagem do produto. Mostrar que ele é bom para todo o Brasil, para o agronegócio, para o transporte, para a economia e para o meio ambiente”, afirmou.
Fonte: Mundo Logística





