Fim de trégua no Oriente: entenda como a alta do petróleo afeta a inflação e os juros no Brasil

Especialistas consultados por O TEMPO indicam pressão na política monetária brasileira, nos preços internos e no mercado; confira as análises

O agravamento das tensões no Oriente Médio, com o fim da frágil trégua entre Estados Unidos e Irã e ataques no Estreito de Ormuz, já tem seus efeitos na economia. O preço do petróleo abriu esta quarta-feira (8/7) com alta de mais de 6%, atingindo o patamar de cerca de US$ 78. Bolsas pelo mundo abriram em queda, inclusive a B3 brasileira, que recuava 0,82% às 11h pelo horário de Brasília.

Para Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad, o Ibovespa abriu o pregão de hoje operando em território negativo, em resposta direta ao colapso do frágil acordo de paz no Oriente Médio e à forte aversão ao risco que tomou conta dos mercados globais. O estopim para essa queda generalizada pelo mundo foi a declaração contundente do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmando que o acordo provisório para encerrar a guerra com o Irã acabou. “A tensão geopolítica atingiu um novo pico nas últimas horas [desta quarta-feira], logo após o Irã lançar novos ataques contra instalações militares norte-americanas no Barein e no Kuwait”, disse.

Essa ofensiva iraniana foi uma retaliação a ataques prévios das forças dos Estados Unidos contra alvos no Irã, que, por sua vez, respondiam a agressões recentes contra navios-tanque no estratégico Estreito de Ormuz. A ruptura desse memorando de entendimento frustrou as expectativas do mercado e ressuscitou o temor de um conflito de proporções imprevisíveis. “A consequência imediata da retomada das tensões foi uma forte disparada nos preços internacionais do petróleo. Como a região do conflito é uma das vias fundamentais de escoamento de energia, a ameaça real de bloqueios ou bombardeios embute um prêmio de risco quase instantâneo no preço do barril”, explica Rebecca.

O verdadeiro fator que puxou o mercado nacional para baixo é o impacto que esse cenário de guerra tem nas expectativas de inflação e de juros globais. A especialista explica que o petróleo mais caro significa um choque de custos em toda a cadeia produtiva mundial, o que pode forçar os bancos centrais, especialmente o Federal Reserve nos Estados Unidos, a manter os juros altos e restritivos por mais tempo para tentar conter a inflação. “Diante do risco de preços descontrolados e de um conflito em expansão, os grandes fundos e investidores institucionais adotam o movimento financeiro conhecido como fuga para a qualidade, devido ao aumento do sentimento de aversão ao risco. Na prática, o capital estrangeiro abandona subitamente os ativos considerados mais arriscados, como é o caso do Brasil e de outros países emergentes”, completa Rebecca.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, completa apontando que o mercado reage com alta imediata do petróleo porque incorpora um prêmio de risco geopolítico grande. “Para que essa valorização seja sustentada, porém, o conflito precisa afetar de fato a oferta global. O principal ponto de atenção é o Estreito de Ormuz: se o fluxo de exportações permanecer preservado, parte da alta tende a ser devolvida. Mas, se houver novos ataques a navios, à infraestrutura energética ou restrições à navegação, o mercado passará a precificar um choque de oferta mais persistente, sustentando preços elevados por mais tempo”, prevê.

Segundo ele, ainda há espaço para novas altas, já que a reação atual representa apenas a reprecificação inicial após Donald Trump declarar que o acordo com o Irã está encerrado. “O comportamento do petróleo dependerá do agravamento do conflito, da segurança da navegação no Golfo Pérsico, de eventuais impactos sobre a produção e a exportação na região e da postura diplomática das grandes potências. Enquanto esses fatores seguirem incertos, a volatilidade tende a continuar elevada no petróleo e nos demais ativos financeiros”, completa Lima.

Embora o Brasil seja um grande produtor e exportador de petróleo, os preços domésticos dos combustíveis seguem influenciados pelo mercado internacional. Um barril mais caro tende a elevar os custos de combustíveis, transporte, logística e insumos industriais, pressionando a inflação. Em contrapartida, exportadoras de petróleo, como a Petrobras, podem se beneficiar do aumento das receitas com exportação. “Os setores mais sensíveis são o transporte rodoviário, companhias aéreas, logística, petroquímica, indústria química e empresas com alta dependência de combustíveis fósseis, além do impacto mais amplo sobre fretes e preços ao consumidor”, afirma o analista da Ouro Preto Investimentos.

“O preço atual do petróleo reflete o risco da escalada do conflito no Oriente, não uma interrupção efetiva da passagem pelo estreito, então ainda há espaço para nova pressão caso o fluxo seja de fato afetado. Para o Brasil, um barril mais caro chega por dois caminhos: encarece combustíveis e fretes, o que dificulta a trajetória de queda da inflação, e aumenta a procura global por proteção, o que pressiona o câmbio e sustenta o argumento de juros altos por mais tempo. Mesmo sendo produtor, o país não fica imune, porque o preço interno acompanha a referência internacional e o combustível pesa no orçamento das famílias e no índice de preços”, completa Peterson Rizzo, Head de Relações com Investidores da Multiplike.

A experiência mostra que eventos geopolíticos dessa natureza costumam provocar volatilidade relevante. “Em 2022, por exemplo, com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, o petróleo Brent chegou a superar US$ 130 por barril, impulsionando a inflação, elevando juros e aumentando o custo de capital em diversos países. Para o Brasil, uma alta prolongada do petróleo pode pressionar combustíveis, fretes, energia e custos de produção, além de impactar as expectativas de inflação, o câmbio e a curva de juros”, lembra Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset.

Além dos efeitos diretos do preço do petróleo no Brasil, o país também importa derivados e sofre com os efeitos indiretos sobre transporte, alimentos, indústria e expectativas inflacionárias. “Para o investidor, o cenário favorece a cautela e a diversificação: ações ligadas ao petróleo podem ganhar, mas setores dependentes de combustível e crédito tendem a enfrentar maior pressão”, diz André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.

A economia brasileira segue exposta ao preço internacional do barril, ao câmbio e à dinâmica dos derivados, especialmente porque parte dos combustíveis e insumos energéticos obedece à lógica global de formação de preços, avalia Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secc. “Se o petróleo continuar pressionado, o efeito pode aparecer no IPCA (inflação) por meio de combustíveis, fretes e custos logísticos, além de alimentar uma alta do dólar em momentos de maior aversão ao risco”, conclui.

“Um choque de petróleo precisa ser lido menos pelo preço do dia e mais pela sua persistência. Se a escalada entre Estados Unidos e Irã ficar concentrada no campo político, a alta tende a perder força conforme os agentes reduzirem o prêmio de risco. Se virar um problema de abastecimento, o mercado muda de regime. Hoje, uma parte do risco geopolítico já está no barril, mas não necessariamente o cenário extremo. O Brasil pode sentir essa pressão mesmo com produção doméstica porque a formação de preços não é local. O petróleo conversa com dólar, combustíveis, transporte, custos industriais e expectativas de inflação”, acrescenta Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos. “Choques desse tipo reforçam a importância de olhar carteira, moeda, liquidez e exposição internacional de forma integrada”, completa Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações.

Fonte: O Tempo

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