IA entra no radar de 84% dos operadores logísticos até 2028: o que isso muda para o transporte de cargas

Estudo da ABOL com o ILOS mostra que agentes de inteligência artificial estão no topo das prioridades de investimento do setor, que faturou R$ 247 bilhões em 2025. A IA deixa de apenas analisar dados e passa a planejar, decidir e executar. Para o transportador, o recado é de preparo: quem não estruturar dados e integração fica para trás na disputa por eficiência e competitividade.

Agentes de inteligência artificial estão nos planos de investimento de 84% dos operadores logísticos brasileiros até 2028, colocando a tecnologia no topo das prioridades do setor para os próximos dois anos. O movimento coincide com uma mudança de estágio da IA na logística mundial: sistemas que antes auxiliavam na análise de informações começam a ganhar capacidade para planejar, decidir e executar tarefas.

O que aconteceu

Os dados fazem parte da edição 2026 do Perfil dos Operadores Logísticos no Brasil, estudo encomendado pela Associação Brasileira dos Operadores Logísticos (ABOL) ao Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS). Depois dos agentes de IA, aparecem entre as prioridades de investimento o data analytics, citado por 70% das empresas, e as torres de controle, com 64%.

A direção dos investimentos converge com o Logistics Trend Radar 8.0, divulgado pela DHL, que coloca Agentic AI e AI Analytics entre as dez tendências com maior potencial de impacto sobre a logística na próxima década.

A principal mudança está no grau de autonomia. Enquanto gerações anteriores de IA estavam concentradas em responder a comandos ou analisar informações, a IA agêntica pode planejar, coordenar e executar tarefas para atingir objetivos definidos, sob supervisão humana. Na logística, as aplicações vão da antecipação de falta de estoques ao redirecionamento de cargas diante de interrupções e ao ajuste da capacidade de transporte em tempo real.

Dados se tornam peça-chave

É na infraestrutura necessária para sustentar essas aplicações que os números brasileiros revelam um desafio. Embora 84% pretendam investir em agentes de IA, o data analytics ainda aparece entre as tecnologias consideradas embrionárias. Em 2024, ferramentas de data analytics eram utilizadas por 39% dos operadores, avanço de sete pontos percentuais em relação a 2022. As torres de controle, em estágio mais avançado, já estavam presentes em 74% das empresas.

TMS e WMS estão em outro estágio: em 2024, sistemas de gestão de transportes eram utilizados por 92% dos operadores e os de gestão de armazéns, por 91%. A integração com clientes e fornecedores chegava a 84% das empresas.

Os números indicam que o setor já construiu parte importante de sua infraestrutura digital, mas ainda precisa avançar na capacidade de transformar o volume de informações gerado por esses sistemas em decisões automatizadas. Entre os obstáculos à roteirização dinâmica estão a baixa qualidade e frequência de dados de tráfego, a falta de confiabilidade de algumas fontes locais e a convivência com transportadores e motoristas agregados com diferentes níveis de maturidade tecnológica.

IA passa da análise para a ação

O avanço para sistemas capazes de agir sobre os dados representa uma nova etapa da digitalização logística. Torres de controle, por exemplo, podem evoluir de sistemas voltados ao monitoramento e emissão de alertas para estruturas capazes de identificar uma possível ruptura, avaliar alternativas e apoiar ou executar ações para reorganizar a operação.

No Brasil, experiências já produzem resultados mensuráveis. A FM Logistic informou ganho superior a 10% na eficiência de picking com aplicações de IA e analytics para otimização de rotas, além de reduzir aproximadamente 15 mil quilômetros anuais de deslocamentos internos.

A expansão dessas aplicações aumenta a importância de outra área ainda classificada como embrionária: a cibersegurança. Quanto maior a conexão entre TMS, WMS, clientes, transportadores, armazéns, equipamentos e ferramentas de IA, maior a necessidade de proteção dos dados e sistemas. No estudo da DHL, Cybersecurity 2.0 está entre as dez tendências de maior impacto, ao lado de Agentic AI, AI Analytics, AI Ethics e Generative AI.

Tecnologia muda perfil do trabalho

A transformação também chega à mão de obra. O Radar da DHL aponta que IA, robótica, sensores vestíveis, operações remotas e assistentes digitais tendem a reduzir atividades repetitivas e ampliar a participação dos trabalhadores em funções de supervisão, resolução de problemas e tomada de decisão.

No Brasil, os maiores operadores logísticos contrataram mais de 26 mil profissionais em 2025, e 77,8% das empresas concentraram admissões na área operacional. Ao mesmo tempo, a entidade identifica dificuldades na contratação de motoristas e profissionais para armazenagem, apontando automação e robotização entre as alternativas para enfrentar esses gargalos.

Mercado chega a R$ 247 bilhões

A transformação tecnológica ocorre em um setor que alcançou receita operacional bruta de R$ 247 bilhões em 2025, crescimento de 18% em relação a 2023, o que equivale a quase 2% do PIB brasileiro. O mercado reúne aproximadamente 1.500 empresas, responde por 983 mil empregos diretos e, considerados os postos indiretos, por 2,8 milhões de trabalhadores.

O que muda na prática para o transportador

Para o TRC, a notícia tem leitura direta:

  1. Dados viram moeda de competitividade — a IA só funciona com dados de qualidade. Transportadoras que estruturam dados de frota, rota, consumo e operação se posicionam melhor para integrar cadeias que exigem visibilidade e previsibilidade;
  2. Integração é condição de participação — com TMS em 92% dos operadores e integração com clientes em 84%, a transportadora que não se conecta digitalmente à cadeia fica fora das operações mais exigentes;
  3. Roteirização e produtividade — a IA agêntica promete otimizar rotas, redirecionar cargas e ajustar capacidade em tempo real, o que pressiona a eficiência operacional e o custo por quilômetro;
  4. Cibersegurança vira gestão de risco — quanto mais conectada a operação, maior a exposição. Proteger dados e sistemas passa a ser parte da gestão de risco da transportadora;
  5. Perfil do trabalho muda — a automação reduz atividades repetitivas e aumenta a demanda por profissionais que operam, supervisionam e decidem a partir das ferramentas, o que exige qualificação da equipe.

Onde está o risco

O risco imediato é de defasagem tecnológica: transportadoras que não investem em dados, integração e automação tendem a perder competitividade diante de operadores mais conectados. O risco estratégico é de dependência e segurança: a expansão da IA aumenta a exposição a falhas de dados e a ataques cibernéticos, exigindo governança e supervisão humana.

Onde está a oportunidade

A oportunidade está em usar a IA para reduzir custo e ganhar eficiência. Medir dados revela desperdício: rota ineficiente, consumo alto, manutenção ruim. Aplicações de IA e analytics já geram ganhos mensuráveis, como os 10% de eficiência da FM Logistic. Para a transportadora, começar pequeno, com dados de qualidade e roteirização, é o caminho para transformar tecnologia em vantagem competitiva sem depender de grandes investimentos.

Leitura estratégica

Depois da disseminação de sistemas para digitalizar transportes, estoques e armazéns, a disputa tecnológica migra para a capacidade de fazer esses sistemas trabalharem de forma integrada, interpretar os dados que produzem e transformá-los em decisões operacionais cada vez mais rápidas e automatizadas. Para o transportador, a leitura é de preparo: a IA não é mais acessório, é condição de produtividade, visibilidade e competitividade. Quem estrutura dados e integração hoje se posiciona para liderar a próxima etapa da logística.

Crédito/Fonte Agência Transporte Moderno, com base no Perfil dos Operadores Logísticos (ABOL/ILOS) e no Logistics Trend Radar 8.0 (DHL)

via SETCOM

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